Brasil: um país de contrassensos ambientais!

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* Murilo Valle – Neste mês de maio, por ocasião do III Encontro Nordestino de Espeleologia e também de atividades relacionadas à execução do Plano de Manejo Espeleológico de grutas da Chapada Diamantina, estive em Iraquara-BA, ladeado de pessoas com um interesse comum: proteger as cavernas. Surgem então algumas perguntas: para que proteger as cavernas?  o que eu tenho a ver com isso? o que me afeta se uma caverna for destruída?

Infelizmente vários leitores não devem ter ido a uma caverna (gruta, lapa, toca, gruna, buraco, entre outros qualificativos). É um ambiente ímpar. Na grande maioria, a beleza cênica das formações, dos rios e lagos, bem como a ocorrência de espécies animais que lá se encontram, são os principais atrativos, por outro lado, estes ambientes, por suas características intrínsecas, permitem a guarda de inúmeros registros geológicos, paleontológicos, arqueológicos, biológicos, históricos e socioculturais de extrema importância. Em tempo, vale à pena esclarecer que “espeleologia” é um termo que deriva do grego em que spelaion=caverna e logus=estudo, ou seja, estudo de cavernas.

No Brasil existem dezenas de exemplos da importância deste patrimônio natural, mas destacarei apenas alguns:

– Serra da Capivara: nesta região, no sertão do Piauí, encontra-se o Parque Nacional da Serra da Capivara, unidade de conservação que possui patrimônio arqueológico e espeleológico de extrema importância mundial. Os achados arqueológicos de Niède Guidon, arqueóloga brasileira de descendência francesa, indicam que o povoamento do continente americano se deu muito antes do que se acreditava. Enquanto a teoria que aprendemos na escola nos ensinaram que o povoamento das Américas aponta que os primeiros humanos chegaram no continente há 15.000 anos, alguns dos sítios arqueológicos de Guidon contém artefatos que datam em cerca de 50.000 anos atrás. O seu trabalho resultou em mais de 1,3 mil descobertas de sítios arqueológicos e centenas de fósseis na região da caatinga;

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Pinturas rupestres na Serra da Capivara, Piauí. Fotos: Murilo Valle

 

– Vale do Rio Peruaçu: localizado no norte de Minas Gerais, próximo a cidade de Januária, abriga mais de 140 cavernas, mais de 80 sítios arqueológicos e pinturas rupestres que permitem tácita compreensão de parte da história da ocupação em nosso continente;

3 Lapa dos Desenhos MG                             Pinturas rupestres no Vale do Peruaçu, Minas Gerais. Foto: Murilo Valle

4 Goias foto AOLobo                             Gruta do Janelão, Vale do Peruaçu, Minas Gerais. Foto: Alexandre Lobo

– Lagoa Santa: neste município mineiro foi encontrado em uma caverna em 1975 o crânio fóssil mais antigo do Brasil, datado em 11.500 anos, denominado Luzia. Posteriormente, por meio de estudos coordenados pelo arqueólogo Walter Neves, da USP, fez descobertas surpreendentes sobre os habitantes humanoides pleistocênicos do Brasil que, certamente, tem ajudado a delinear a história da ocupação humana nas américas.

– fauna cavernícola: trabalhos realizados pelas pesquisadoras Eleonora Trajano (IB-USP) e Maria Lina Bichuette (IB-UFSCar) em inúmeras cavernas brasileiras, dentre outros pesquisadores, tem trazido nas últimas décadas um conjunto significativo de informações sobre novas espécies cavernícolas que, dentre os quais, permitem o enriquecimento da compreensão dos biomas a eles associados;

5 bagrecego foto JurandirAguiar                                Bagre cego – caverna no PETAR, São Paulo. Foto: Jurandir Aguiar

– estudos geológicos: trabalhos realizados por Ivo Karmann, Augusto Auler, Francisco William, José Antonio Ferrari, Murilo Valle, Luiz B. Piló, Fernando Laureano, Ricardo Fraga, dentre outros, têm permitido a compreensão da evolução geológica, geomorfológica, hidrogeológica e principalmente, paleoclimática, do Brasil. Este tipo de informação científica é estruturante para a proteção ambiental, bem como para o uso sustentável de recursos ambientais;

6 tbv AOL                  Toca da Boa Vista, Bahia (maior caverna do Brasil – 107 km). Foto: Alexandre Lobo

7 Terra Ronca foto AOLobo                                            Gruta São Bernardo, Goiás. Foto: Alexandre Lobo

8 Poco Encantado foto AdrianoGambarini                         Gruta Poço Encantado, Chapada Diamantina, Bahia. Foto: Adriano Gambarini

9 Lapa Doce I boca 1                                 Gruta Lapa Doce, Chapada Diamantina, Bahia. Foto: Murilo Valle

10 fossilchapadaFóssil de animal do período Pleistoceno em gruta da Chapada Diamantina, Bahia. Foto: Murilo Valle

Assim, proteger as cavernas é uma ação que permite com que pesquisas sejam desenvolvidas e que conhecimentos sobre: a evolução dos seres vivos, a ocupação humana e da evolução do planeta, possam ser desenvolvidos. Ainda há muito para se estudar.

O patrimônio espeleológico é ameaçado pelo uso desenfreado de recursos minerais, do uso e ocupação do solo desordenado e por grandes obras de infraestrutura dos governos federal, estaduais e municipais. Os caminhos delineados pela PEC 65/2012 colocam em risco o patrimônio espeleológico, a partir do momento que os interesses econômicos se sobrepõe aos interesses ambientais. Chama ainda atenção que no projeto de governo “Uma ponte para o futuro”, do presidente brasileiro em exercício, a flexibilização dos processos de licenciamento ambiental é uma das premissas.

Na linha contra estas ações está parte do roteiro da tocha olímpica. No dia 23/5/2016 passou pela Chapada Diamantina a tocha olímpica. O trajeto constou como base o município de Lençois-BA e passou pelos atrativos naturais de Iraquara, Gruta da Pratinha e Gruta Lapa Doce. A organização é quem escolheu estes dois pontos para a passagem da tocha olímpica. Tive a oportunidade de acompanhar de perto as duas passagens, e a felicidade dos condutores, das pessoas que presenciaram é algo inenarrável. Foi um evento muito significativo para a população local. A comissão organizadora, ao eleger estes dois locais, compreendem sua importância, motivo que suscita o título deste artigo. Ao passo que valoriza-se o patrimônio natural, exibindo-o ao mundo, em um outro braço, o senado aprova quase que de forma sub-reptícia, o andamento da PEC 65/2012.

Aliado a isto, ao mesmo tempo, há forte especulação para exploração de calcário e fosfato das rochas que abrigam as cavernas da Chapada Diamantina. A PEC 65/2012, se aprovada, vai colocar em risco o patrimônio espeleológico em inúmeras regiões brasileiras que não possuem proteção que garantam esta guarida. A Chapada Diamantina é uma dessas. A PEC 65/2012 é um contrassenso no momento que se entende que a proteção ambiental é a base para o pleno desenvolvimento sustentável, que poderá garantir aos nossos descendentes condições de vida igual ou melhor às nossas. Sabendo que PEC significa Proposta de Emenda à Constituição, se aprovada a PEC 65/2012, o Brasil viverá um retrocesso legal sem precedentes e, ainda na onda do contrassenso, ficará esquisito compatibilizar a proposta da PEC com a Constituição de 1998 que, em seu artigo número 225, preconiza “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.” A PEC 65/2012 impulsionará que interesses econômicos coloquem em risco os notáveis e importantes recursos ambientais do Brasil, dentre os quais, as cavernas.

Oxalá o esplendor e brilho da tocha olímpica atinja a consciência da sociedade brasileira para impedir mais este retrocesso. Leia e opine sobre a PEC 65/2012. Acesse o link   Será um importante exercício de cidadania.

11 tochalapadoce                     Tocha olímpica na Gruta Lapa Doce, Chapada Diamantina, Bahia. Foto: Murilo Valle

Fotos para divulgação do Prof. Dr. Murilo Andrade Valle, candidato à reitoria da Fundação Santo André. Fotos: Otavio Valle/Divulgação

* Professor Murilo Valle é Doutor e Mestre em Geologia pela IGc (Universidade de São Paulo) e coordenador do Curso de Engenharia Ambiental – FAENG (Fundação Santo André). Contato com o colunista pelo e-mail murilovalle@hotmail.com

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1 comentário on "Brasil: um país de contrassensos ambientais!"

  1. Monica

    Parabéns… precisamos de professores como senhor… destemido, que leva a sério a profissão de sensibilização do próximo para com a natureza

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