Trump: Populismo Impedido

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* Márcio Coimbra – Donald Trump governou os Estados Unidos por quatro anos. Sofreu dois impeachments. Será lembrado como um governo conturbado e polarizado que ao final organizou uma insurreição contra o maior símbolo da democracia americana, o Capitólio. Termina seu mandato isolado, longe de republicanos e democratas, além de conduzir um gabinete que desmorona a cada dia com pedidos de demissão de seus principais nomes. Um final melancólico para quem desejava mudar a política.

Trump, assim como Bolsonaro, fazem parte de uma safra de líderes que foram eleitos na esteira de uma nova política, que dizia rejeitar os velhos métodos e operações tradicionais de poder. Governam limitados pela polarização e o confronto, longe, portanto, do diálogo, entendimento e moderação. São populistas na medida que buscam uma interação com a população que passa ao largo dos instrumentos institucionais tradicionais.

Esta liderança, apesar de chegar ao poder pela direita política, não possui viés conservador, uma linha política orientada pelo princípio da prudência, temperança, cautela, estabilidade e moderação. Ao adotar um modelo de confronto, disruptivo com a política, Trump tomou contornos antidemocráticos, agregando ao seu lado radicais de diversos matizes, rompendo com os princípios defendidos pelo seu próprio partido.

Isto explica o placar de seu segundo impeachment na Câmara de Representantes. Além dos democratas (mais de duas centenas apresentaram o pedido em conjunto), republicanos se juntaram ao esforço de punir o Presidente pelo movimento de insurreição contra a democracia. O fato é inédito e pela primeira vez depois de muito tempo pudemos enxergar uma agenda bipartidária que uniu as duas forças na Câmara.

Aprovado o impeachment, o caminho agora é o Senado, que pode aprovar o pedido de afastamento do Presidente do cargo. Ali são necessários 67 votos. O debate, entretanto, deve ocorrer somente com o novo Senado, que será empossado em alguns dias. A acusação pode levar a inabilitação política de Trump, algo que deve ser decidido em uma segunda votação por maioria simples, caso seja aprovado o afastamento. Isto ocorre porque a base da acusação está alicerçada na tentativa de insurreição.

Trump é apenas o terceiro Presidente a ter um impeachment aprovado pela Câmara de Representantes. Antes dele, apenas Andrew Johnson (1868) e Bill Clinton (1999) haviam enfrentado o processo. Ambos foram absolvidos pelo Senado. Trump foi alvo de dois pedidos aprovados, em 2020 e 2021. Absolvido no Senado na primeira acusação, tem grandes chances de ser considerado culpado diante da segunda.

Barbárie não rima com democracia, assim como insurreição não rima com liberdade. Trump sentirá o peso da lei sobre seus ombros assim que deixar a Presidência. Será alvo de inquéritos, investigações e processos. A nação americana é extremamente rigorosa no cumprimento da lei e no respeito à democracia. Trump atingiu dois pilares essenciais da república e certamente não terá vida fácil assim que deixar a Casa Branca.

Apesar dos mais de 70 milhões de votos, Trump vive seu ocaso político. Seus planos passam por organizar um movimento de direita que possa levá-lo de volta ao Salão Oval em 2024. A tarefa é praticamente impossível. Deve ser expulso de seu partido e terá mais trabalho para evitar condenações sérias do que trabalhar por um futuro político. Enquanto isso, os republicanos certamente passarão por uma faxina profunda para se livrar dos resquícios populistas, deixando esta triste marca para trás.

O ocaso de Trump marca também o início do fim da experiência populista que seduziu algumas nações. Estamos aos poucos de volta aos pilares da sensatez, moderação e diálogo, elementos fundamentais de uma boa política. O trauma vivido pelos americanos diante da invasão do Capitólio servirá de vacina contra novos aventureiros, assim como o mundo precisa se preparar para também despachar seus populistas do poder. Nesta batalha, a democracia certamente irá prevalecer.

* Márcio Coimbra é coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, Cientista Político, mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil. Diretor-Executivo do Interlegis no Senado Federal

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