Trem Bala

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* Maristela Prado – De repente já é sábado, já chegou o fim do ano. Isso porque passa tudo tão rápido, ou parece que passa. Nos dá a impressão de que não temos mais tempo como antes, parece que os dias e os meses passam mais rápido. Será que essa impressão é de fato verdadeira ou somos nós que queremos fazer muitas coisas, temos pressa no tempo?

A ansiedade é um mal que acomete quase toda a humanidade. A paciência transformou-se num pesadelo. Do imediatismo alucinante que se tem nas palmas das mãos? É muito comum recebermos uma mensagem e logo em seguida um telefonema de alguém que não quis esperar você responder. Que vida é essa que não temos mais tempo para sentir saudade, falta, o friozinho na barriga do telefone tocar? Ou ainda, poder ficar alguns minutinhos sozinho, pensando, ouvindo uma música, e poder cantar até o fim sem o barulhinho da mensagem tocar, ver TV sem lembrar do mundo exterior.

Que pena que ficamos assim, não temos mais o direito de sair sem sermos encontrados. As pessoas até fazem questão de marcar onde estão nas redes sociais para que TODOS saibam. Sabem até a hora em que chegou e não muito incomum, quando foi embora. Fotos então, em todos os momentos e lugares. Claro que não é a grande maioria, mas tem gente que exagera. Qual a necessidade de mostrar tudo o que acontece na vida? Não raro é acontecer até mortes por saberem onde se encontra, com quem, com que roupa está. Ficou muito fácil ser achado, tanto por quem se quer tanto por quem não se quer.

Quando era adolescente, costumávamos escrever tudo o que nos acontecia em um diário, guardado a sete chaves. Claro, não queríamos que soubessem dos nossos mais profundos segredos. Hoje não, é escancarado para quem quiser saber. Mas não ouse falar sobre mim, quero que todo mundo saiba, mas não quero opiniões. Afinal, a vida é minha, claro. Só postei porque queria que todo mundo soubesse daquilo, sem interferências.

Pois é, quanta falta de sabedoria para viver. Não são apenas os jovens, mas muitos usuários que se dizem adultos se comportam dessa forma. Todos dominam os assuntos mais diversos, são formados em tudo e sabem condenar ou defender sem erros. Afinal são pessoas mais que perfeitas, não erram, não cometem injustiça, tão pouco falam mal daqueles aos quais chama de amigos. “No hospital” vem aquela avalanche de pessoas “preocupadíssimas em saber se está tudo bem”. Experimenta falar que está fazendo um grande negócio e precisa da colaboração de todos. Alguns poucos gatos pingados aparecem só para curtir, mas para apoiar….

Bem, como disse no começo, nossa vida está mais corrida por todos esses motivos e mais alguns outros, já que desaprendemos a esperar os resultados. Não sabemos mais terminar um trabalho sem ter que saber a resposta imediatamente. E assim a vida vai passando, vão ficando para trás momentos que não damos mais muita atenção. O trem passava mais devagar, apreciávamos mais a paisagem, o sol e a chuva. Passávamos mais tempo, e com mais qualidade, com aqueles que amamos. Hoje nem as crianças têm mais tempo, são tantas as obrigações, os cursos, que passamos uma semana inteira sem vê-los direito. A infância é muito curta, e depois? Passou, e você não viu.

Quando nascemos embarcamos nesse trem para passar por essa vida de forma tranquila e bonita, mas nós complicamos tudo. Conseguimos transformar nosso vagão em um lugar apertado e cheio de defeitos, mas quando chegamos lá não era assim, porque não era mesmo. Nossa tolerância vai ficando curta e cada vez queremos mais, e nosso espaço fica pequeno.

E o trem? Esse passa rápido, às vezes quando vamos olhar, já foi mais um destino, e nem terminou aquele ainda. E você deixou sua vida passar e não sabe onde errou, ou onde deixou aquilo que não fez e estava nas suas mãos, mas a pressa te atrapalhou e a vida passou.

* Maristela Prado é Bacharel em Letras e revisora de textos, casada e mãe dois filhos adultos. Leia mais no blog As Letras da Vida

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