Salvem o Jornalismo Esportivo!

868 5

* Márcio Trevisan – Não vou mentir a vocês: meu primeiro sonho de criança não era ser jornalista esportivo – era ser jogador de futebol. Até tentei, e cheguei a me inscrever em duas peneiras quando tinha meus 12 anos: no Palmeiras e no São Paulo.

A do Verdão se tornou mais emocionante, pois meu avaliador foi ninguém menos do que Ademir da Guia (que, claro, me reprovou, já que eu não jogava quase nada).

A do Tricolor foi mais traumática: nunca soube o nome do cara que sequer me deixou jogar, pois o gênio aqui resolveu ir ao teste de óculos e, segundo o dito cujo, “o Morumbi não era lugar pra jogador cegueta”.

Contudo, sempre amei o jogo de bola e, como tinha facilidade para escrever e falar, resolvi abraçar um novo sonho, que era fazer tudo aquilo que já fiz e que, graças a Deus, sigo fazendo até hoje – e olha que já se vão quase 32 anos de convívio quase que diário com você, torcedor.

E é em nome desta paixão e do respeito que tenho por todos aqueles que ainda se emocionam quando veem ou ouvem um grito de gol que peço: salvem o Jornalismo Esportivo!

Desde quando as redações e os estúdios de Rádio e TV começaram a ser infestados por ex-jogadores e ex-treinadores travestidos de comentaristas o profissionalismo foi pras cucuias. Não faz muitos dias, um ex-atleta, reconhecidamente corintiano, jogou sobre si uma garrafa de água quando o Mirassol eliminou o São Paulo no Paulistão. E pior: o narrador caiu na gargalhada, numa brutal falta de respeito com a galera são-paulina.

Os erros de Português também são flagrantes. Pouco depois do episódio do banho, ouvi em outra emissora, um ex-atleta, aliás bastante carismático, dizer que “a cassificaçaum do Palmera foi justa”.

Ontem, por motivos alheios à minha vontade, fui obrigado a assistir ao clássico entre Palmeiras e Santos numa certa TV aberta. Fazia anos – isso mesmo: anos! – que não tinha tal desprazer, mas como disse acima, era minha única opção. E para minha tristeza, mas não para minha surpresa, um pseudocomentarista (assim classifico todos aqueles que falam e escrevem profissionalmente sobre futebol sem terem, muitas vezes, concluído nem mesmo o Ensino Médio), interrompeu duas vezes – isso mesmo: duas vezes! – o narrador não para explicar o que estava acontecendo em campo, mas para culpar o governo pelo número de vítimas da Covid-19 no Brasil. Na primeira, o narrador deixou passar, mas na segunda vez, por sorte, o Verdão começava a jogada que culminaria em seu segundo gol e, então, o tal ex-jogador foi bruscamente interrompido.

Sei que a TV em questão tem razões políticas e econômicas para adotar a postura que vem adotando, mas como não sou jornalista político e nem econômico prefiro não adentrar neste campo – até porque o meu é outro, gramado. Apenas lembro que em tempos terríveis como o que vivemos, nos quais milhares de pessoas já faleceram e outras milhares perderam amigos e familiares, o objetivo de quem liga o TV na hora do jogo é torcer por um dos times ou, pelo menos, se distrair. Não precisa ser lembrado a toda hora que vivemos numa pandemia.

O problema, meus amigos, é que tal postura já se provou contagiante. Há alguns dias, um jornalista (este, sim, diplomado) começou a discorrer durante um programa esportivo sobre a culpa do presidente em relação à Covid-19. Depois de alguns minutos, foi alertado pelo apresentador que um ouvinte havia enviado uma mensagem dizendo estar cansado de ouvi-lo falar da doença, e que preferiria que o jornalista comentasse sobre os resultados da rodada.

A resposta do cara foi a seguinte: “Eu também já estou cansado de ver um monte de gente, principalmente governantes, falando e fazendo besteira, enquanto pessoas morrem todos os dias. Aliás, eu só estou aqui hoje porque sou profissional, porque vontade de falar sobre futebol eu não tenho nenhuma. E tem mais: se você não está gostando do que eu digo, troque de emissora ou desligue seu rádio”.

Isso mesmo: o cidadão admitiu que só estava trabalhando porque era obrigado e sugeriu que o ouvinte desse audiência à outra rádio! Trata-se de uma postura inadmissível a quem estudou e conseguiu seu diploma de nível superior.  Bem, nem preciso dizer que o caso acima ocorreu em uma emissora que pertence ao mesmo grupo cujo canal tive a infelicidade de ver neste domingo.

Sei que me alonguei demais, e por isso agradeço e peço desculpas a você, que teve a delicadeza de me ler até o fim. É que na verdade nesta semana este espaço foi ocupado não por uma coluna, mas sim por um desabafo.

Que ele sirva para alertar o torcedor a escolher de forma correta os meios onde se informará sobre futebol, pois somente desta maneira o Jornalismo Esportivo terá alguma chance de sobreviver.

Total 8 Votes
0

Tell us how can we improve this post?

+ = Verify Human or Spambot ?

5 Comentários on "Salvem o Jornalismo Esportivo!"

  1. Regina Ribeiro

    Adorei esta matéria ! Acredito que muitas pessoas que, como eu, admiram o futebol tem isso entalado na garganta. Alguns comentaristas são insuportáveis, além de totalmente despreparados. No país em que moro – Portugal – seja em rádio ou TV, somente jornalistas é que podem narrar e comentar durante as transmissões. Parabéns pelo excelente artigo!

  2. CliqueABC

    Márcio Trevisan, o texto mais afiado do jornalismo esportivo paulista. Grato por nossa parceria. Eu e os leitores do CliqueABC agradecemos a nossa parceria e a sua participação na produção do conteúdo editorial do CliqueABC.

  3. Paulo Amaral

    Fala, professor. O grande problema, ou parte dele, também é culpa nossa, jornalistas diplomados. Está cada vez mais difícil encontrar opinião isenta e coerente sobre futebol. Ou são semianalfabetos, como Muller e Vampeta, ou colegas nossos que esquecem de tirar a camisa na hora de comentar. Triste…. Forte abraço

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *