Qualquer domingo desses…

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Márcio Trevisan

* Márcio Trevisan – Por muitos anos, as arquibancadas foram minha segunda casa. Nelas, vivi momentos de muita alegria mas, confesso, outros que não poucas vezes me levaram às lágrimas. Do êxtase das vitórias ao desespero das derrotas, do aplauso ao craque à ira ao perna-de-pau. Exatamente como a vida de todos nós, onde triunfos e tropeços se sobrepõem. E foi por isso que resolvi escrever esta crônica, na verdade uma homenagem ao local que mais amo: as arquibancadas dos nossos estádios.

Aliás, a democracia nasceu nas arquibancadas do futebol. Se não nasceu, pelo menos poderia ter nascido, pois não existe lugar no mundo em que pessoas completamente diferentes tornem-se tão iguais e, nem que seja por hora e meia, convivam harmoniosamente, bastando para tanto apenas gostarem todas das mesmas cores.

Pense bem: onde mais crentes e ateus podem ficar lado a lado sem que um tente convencer o outro a aceitar a sua filosofia? Qual outro local comunistas e capitalistas conseguem dividir sem que ambos se acusem reciprocamente por todos os males do mundo? E mais: ricos e pobres, novos e velhos, homens e mulheres, cultos e ignorantes, todas as diferenças, enfim, conhecem um outro rincão desta Terra no qual a paz perdure, triunfante?

Não, certamente não. E é aí que está a grandiosidade das arquibancadas. São elas plateia do grande espetáculo, onde os artistas não são atores ou cantores, mas jogadores de futebol. Homens simples, em sua maioria vindos das camadas mais pobres da população, se transformam em ídolos de uma massa enlouquecida, que canta e vibra, entoando o nome do seu clube.

As arquibancadas, por muitos anos, foram a minha segunda casa. Para chegar até elas não media esforços, ainda que o dinheiro para o ingresso muitas vezes tivesse de ser conseguido através de insistentes e ininterruptos pedidos, que começavam desde segunda-feira e, quase sempre, só terminavam na manhã do domingo seguinte, poucas horas antes do jogo. Mas todo o esforço me era recompensado, mesmo que me time, muitas vezes, vivesse dias em que as vitórias fossem algo tão raro quanto hoje são as derrotas.

Mas não me importava, de fato, o resultado que ele teria. O que mais me emocionava era o calor humano, era uma nova amizade que surgia a cada partida. Sim, fiz centenas delas nos jogos aos quais compareci. Durante 90 minutos, aquele desconhecido sentado ao meu lado era o melhor amigo de toda a minha vida. Eu não sabia sequer o seu nome, nem ele o meu, mas naquele momento este era um detalhe insignificante. Na verdade, o que interessava é que ele juntava à sua voz a minha voz, e ambas, então já roucas, formavam um coro que, ganhando mais vozes a cada segundo, elevava o nome do nosso time por toda a arquibancada quase que na velocidade do som. Depois, nunca mais nos veríamos, mas certamente jamais nos esqueceríamos.

O tempo passou e os caminhos profissionais que trilhei obrigaram-me a assistir aos jogos das Tribunas de Imprensa. Muito mais confortáveis, sem dúvida, com todas as comodidades que minha profissão exige, mas também sem quase nenhuma emoção. Lá não há o grito de gol que surge no âmago e que usa a garganta como estrada para ganhar o mundo. Lá, quem se senta ao meu lado não me é desconhecido, todavia também não é, nem mesmo por 90 minutos, o meu melhor amigo. Por isso, olhando hoje do outro lado do estádio as pessoas que de tão perto conheci, sentindo à distância a mesma paixão de antes, confesso que ao ver as arquibancadas do estádios lotadas a inveja toma conta de mim.

Fico relembrando toda a festa, todos os gritos, toda a alegria que é estar naqueles lances de cimento armado. Relembro e tenho saudades de todo o ritual, que começava bem cedo, pegando dinheiro com o pai, passava por um rápido almoço que a mãe, sempre, adiantava o que podia, enfrentava ônibus lotados, fila para a compra do ingresso, aperto para entrar, sorte para conseguir um bom lugar e coragem, muita coragem para voltar pra casa, às vezes tendo na boca o amargo sabor da derrota.

Qualquer domingo desses vou tomar coragem e, pelo menos por hora e meia, vou voltar ao meu segundo lar. Qualquer domingo desses, vou reencontrar os melhores amigos de minha vida, mesmo que jamais os tenha visto antes, vou sorrir e chorar, aplaudir e vaiar, cantar e calar, seguindo a mesma trilha tantas e tantas vezes antes percorrida.

 Qualquer domingo desses, meu amigo, vou voltar a ser feliz…

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Márcio Trevisan

* Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 32 anos. Começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Passou, também, pelas assessorias de Imprensa da SE Palmeiras e do SAFESP, além de outros órgãos. Há 14 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico.

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