O mimimi do Temer e a licença para embarcar no trem do golpe

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* Kati Dias – A carta do vice-presidente Michel Temer (PMDB) e sua mágoa reprimida pela presidente Dilma Rousseff (PT) é o tema que domina dos noticiários às redes sociais. Temer golpista, dizem alguns. Outros comparam o vice ao personagem Frank Underwood, brilhantemente interpretado por Kevin Spacey na série House of Cards (Netflix). A exemplo Underwood, Temer pode chegar à presidência sem ter conquistado um mísero voto, se o processo de impeachment aberto pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB), presidente da Câmara dos Deputados, for adiante.

Temer

Li a carta discretamente vazada pela assessoria do vice-presidente (ou alguém acredita que isso foi um acidente?). Minha primeira reação foi compará-lo a um golpista. Afinal, o que pode se pensar da segunda pessoa no comando do país, que pula do barco quando ele está à deriva? Na condição de jornalista, entretanto, não posso assumir um lado como verdade absoluta. A premissa básica da profissão, embora muitos colegas tenham se esquecido, é a de ouvir os dois lados e a isenção. E se o Temer estiver certo? Será que nesse período ele não foi um “vice decorativo”?

Acompanhamos, especialmente nos últimos meses, a inabilidade política da presidente Dilma. A dificuldade em se articular politicamente. Um prato cheio para Eduardo Cunha trancar pautas importantes, especialmente àquelas referentes ao ajuste fiscal. Enquanto isso, a desaceleração econômica foi se aprofundando e provocando uma crise descomunal. Assustados com o futuro sombrio, os brasileiros diminuíram o consumo; com a queda da produção, as empresas foram obrigadas a cortar custos e pessoas.  O resultado dessa tragédia foi a ampliação da taxa de desemprego em 8,9%, só no último trimestre. A população sem emprego subiu para 33,9% em um ano, segundo o IBGE.

Sempre defendi que a crise política que se instalou no Brasil logo após a eleição foi o combustível da crise econômica que se avizinhava. E qual é a culpa da presidente Dilma? Grande parte dela. Seu maior pecado foi a de defender a continuidade da política econômica no segundo mandato, durante a campanha eleitoral, e surpreender os seus eleitores, logo após a confirmação da vitória, com um ajuste econômico ortodoxo, comandado pelo Chicago boy (ops, ministro da Fazenda) Joaquim Levy. Chicago Boys é a expressão usada para designar toda uma geração de economistas liberais americanos formados na Universidade de Chicago, no fim da década de 70 e o início da década de 80. Entre eles está Levy, cujo título de PhD foi obtido naquela instituição.

O governo da presidente Dilma seguiu na contramão daqueles que votaram nela. O receituário que a presidente Dilma precisava seguir, e chancelada pelos movimentos sociais, era a de desenvolver uma estratégia que combinasse o combate à inflação com políticas de estímulo aos investimentos. Essas ações eram necessárias para dinamizar o desenvolvimento com geração de emprego e renda. Abordagem completamente diferente da adotada pelo atual ministro, que tem priorizado um ajuste fiscal que tem prejudicado a manutenção de empregos, a distribuição de renda e o combate à pobreza.

A presidente Dilma tem cometido uma série de erros. Errou ao adotar uma política econômica ortodoxa, errou ao entregar cargos estratégicos ao PMDB na reforma ministerial e errou ao manter Aloísio Mercadante como o seu ministro-chefe da Casa Civil, um cidadão que estava mais preocupado em se capitalizar para ser o sucessor da presidente do que promover articulação política.

E se o vice Michel Temer se sentia como um mero objeto de decoração, por que topou fazer parte da chapa majoritária na reeleição? Por que não se arriscou a sair como candidato a presidente? Afinal, o PMDB é o PMDB. Independentemente de quem esteja no governo, o partido quer ser situação, usufruindo dos cargos e verbas públicas. Por isso, esse mimimi nada mais é do que justificativa para embarcar no trem do golpe (ops, impeachment).

É fundamental que todos os brasileiros lembrem-se de algo muito importante: a Presidência da República não é como um time de futebol, no qual um técnico pode ser demitido sumariamente depois de perder três jogos consecutivos. Embora tenha cometido inúmeros erros, a presidente Dilma foi eleita por mais de 54,5 milhões de votos. O mandato dela foi concedido pelo povo brasileiro num pleito democrático. E o cumprimento desse mandato significa o respeito à vontade popular, a base da democracia. E quem perdeu não adianta ficar tentando obter a vitória a força, no tapetão. Isso é golpe!!

 

Kati Dias* Kati Dias é jornalista e analista no núcleo de Conteúdo e Imprensa da Agência Insane de São Caetano do Sul. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), com passagens pelos jornais Diário do Grande ABC e Bom Dia ABC. Contato com a colunista pelo e-mail kadias26@gmail.com

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