Insetos na dieta

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* Maurício Antônio Lopes – Os insetos estão entre os organismos mais disseminados e abundantes no planeta, com cerca de 30 milhões de espécies, que juntas acumulam o maior volume de biomassa entre todos os seres vivos.

Estima-se haver mais de 200 milhões de insetos para cada ser humano, o que significa 140 quilos de insetos para cada quilo que cada um de nós acumula.  A importância dos insetos para a humanidade é incalculável, desde a polinização de plantas, a produção de mel e seda, o controle natural de pragas e o equilíbrio dos ecossistemas, até suas formas, cores e padrões, que tanto agradam aos nossos sentidos.

Os insetos estão por aqui há cerca de 400 milhões de anos,  e essa característica conferiu a eles uma capacidade adaptativa extraordinária — existem cupins da África Oriental capazes de colocar um ovo a cada dois segundos, totalizando 43.000 ovos por dia, e há gafanhotos que podem voar em nuvens de até um bilhão de indivíduos, devorando tudo o que encontram.

Ao contrário dos mamíferos e aves, que usam muita energia para se manter aquecidos, os insetos são eficientes conversores de alimento em massa corporal. Assim, essa habilidade de converter as mais variadas fontes de alimentos em proteína de alta qualidade pode dar aos insetos um papel de destaque na composição das dietas humanas e de rações animais no futuro.

Aproximadamente dois bilhões de pessoas em 130 países já comem insetos regularmente, e a FAO, Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, vem promovendo e estimulando a ampliação do seu uso como forma de prover proteínas, vitaminas e aminoácidos de alta qualidade para reforço das dietas humanas.

Um dos objetivos é explorar a alta taxa de conversão alimentar de espécies como os grilos, que precisam de seis vezes menos alimento que bovinos e duas vezes menos que suínos e frangos de corte para produzir a mesma quantidade de proteína, emitindo menos gases de efeito estufa e outros poluentes.

Além do uso direto na alimentação humana, outra grande promessa é o uso de insetos devoradores de lixo e resíduos para produção de adubos orgânicos e rações animais.  A Embrapa e parceiros nacionais e internacionais já exploram o potencial de espécies como a mosca-soldado-negra (Hermetia illucens), o besouro-tenébrio (Tenebrio molitor), o grilo-preto (Gryllus assimilis), entre outros, como componentes de rações para aves e peixes.  E demonstram que é possível substituir gradualmente as rações convencionais, à base de farinha de peixe e farelo de soja, por uma dieta equilibrada com insetos, com substanciais benefícios econômicos e ambientais.

Com todo esse potencial a ser explorado, não é surpresa o surgimento de muitas empresas e startups criando produtos à base de insetos para substituir componentes de ração animal, um mercado de US $ 400 bilhões/ano.  E o emergente mercado de proteínas de insetos poderá também surfar a onda das alternativas de carne à base de vegetais, e ampliar a ruptura no mercado de alimentos, uma vez que já é possível combinar proteína de insetos com ingredientes à base de plantas para criar produtos contendo todos os nutrientes essenciais derivados de animais domésticos.

O fato é que não há nada assegurado para o mercado de alimentos do futuro.  Praticamente todos os estudos prospectivos nos dizem que a distância entre ficção científica e realidade seguirá se encurtando, e avanços em áreas inusitadas, até agora consideradas especulativas, podem se tornar realidade em breve.  Fiquemos atentos!

* Maurício Antônio Lopes é pesquisador da Embrapa

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