Deus não está morto

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Márcio Trevisan

* Márcio Trevisan – Tinha tudo para ser mais um dia como outro qualquer no Céu. Como acontece desde o início dos tempos, muitos lá chegariam vindos do plano inferior e, claro, todos na esperança de serem recebidos. Mas, como sempre se soube, nem todos teriam as portas abertas imediatamente. Só que, naquele fim de manhã de uma quarta-feira, havia um bochicho por lá. “Parece que vai chegar alguém famoso”, diziam.

E chegou. Bastante confuso, um tanto quanto enfraquecido pelo álcool e pelas drogas e sem conseguir esconder um tiquinho de irritação por não ter tido a recepção à qual sempre esteve acostumado, um baixinho e gordinho falando espanhol logo bateu na porta em que se lia: Administração. E, ainda de fora, ouviu uma voz forte, que lhe disse: “Entre, Diego. Seja bem-vindo”.

Pisando firme e com olhar impetuoso, o sessentão foi direto à mesa em que se sentava um velhinho de barbas brancas. E, então, deu-se o seguinte diálogo:

_Meu amigo, já que o senhor parece ser o único que me conhece por aqui, pode me explicar o que “carajo” está acontecendo?

_Posso, claro. Você voltou pra casa. E até que foi meio rápido, não acha? Foram só 60 anos por lá…

_ Minha casa? Não senhor: eu moro em Buenos Aires. Aqui é até bem bacana, tudo limpo, o Sol brilha, a temperatura é amena, tem uns jardins da hora, mas não é a minha casa, não. Aliás, acho que as pessoas que vivem aqui são meio esnobes, viu, porque eu passei por um monte de gente e eles fizeram de conta que nem me conheciam. Acho melhor eu voltar.

_ Não dá, meu amigo. A partir de agora, você vai recomeçar é por aqui, mesmo. E agradeça, cara, porque nem todo mundo tem a mesma sorte. Se eu te mostrar os lugares aos quais muitos são levados, você nem vai acreditar. Então, vai por mim: aqui é muito melhor. Mas se você quiser ficar por aqui, terá primeiro de se recuperar dos males físicos que causou a si mesmo. E vamos combinar que não foram poucos. Depois, precisará trabalhar e estudar bastante para progredir espiritualmente. Em seguida, quando estiver melhor, poderá ajudar na recepção diária dos novos habitantes e em outras tarefas gerais. Só depois de tudo isso, e se você fizer por merecer ou, então, se aceitar as condições que lhe serão impostas, poderá voltar para aquela que você chama de “sua casa”.

_ Parece que isso vai levar um tempão, senhor.

_ Talvez sim, talvez não. Mas isso pouco importa, pois aqui nós temos todo o tempo do mundo. Além disso, em sua mais recente visita lá embaixo você fez muita gente feliz, e isso conta ponto pra caramba, fique sabendo.

_ Ah, então deve ter argentino por aqui…

_ Claro que, sim, milhões deles. E milhões de outras nacionalidades, religiões, cores, classes sociais, posições políticas. Aqui, Diego, vigora a melhor democracia do mundo. Ou melhor: de todos os mundos.

_ Acho que vou sentir saudades das coisas de lá. Meus filhos, meus amigos, meu país… Do futebol, que tantas alegrias e conquistas me deu. Estou com medo de não conseguir. Estou até com vontade de chorar.

_ Não precisa ter medo e nem ficar triste. As pessoas que você amava na Terra continuará a amar no Céu, e aquelas que o amavam lá embaixo o amarão para sempre – fiquei sabendo que você estava preocupado com isso, né? Olha, para lhe ser bem sincero, a vida aqui não é tão diferente da que você estava acostumado. Aliás, se você quiser bater uma bolinha, tem muitos jogadores por aqui – Puskás, Yashin, Pedro Rocha, Dêner, Garrincha, Cruyff. Isso sem falar nos seus conterrâneos, como o Cejas, o Sastre, o Di Stéfano, o Perfumo… 

_ E como eu faço para encontrar minha turma, senhor?

_ Calma. Tudo tem seu tempo. Como eu já disse, primeiro você precisa se curar de tudo o que de ruim fez a si mesmo. Depois, na hora certa, você encontrará todas as pessoas que quiser. E se aqui em cima for tão talentoso quanto era lá embaixo, você driblará todo os seus obstáculos facilmente e rapidinho começará a marcar um monte de gols. E o melhor: sem precisar usar sua mão e depois dizer que usou a minha. 

_ Nossa, agora entendi: o senhor é Deus, né?

_ Muito prazer, Diego.

_ Gozado, na Terra tem gente que diz que o senhor está morto.

_ Não estou, não, Diego. E nem você.

* Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 32 anos. Começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Passou, também, pelas assessorias de Imprensa da SE Palmeiras e do SAFESP, além de outros órgãos. Há 14 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico

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