Dois pesos e nenhuma medida

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 * Dojival Vieira – A denúncia em que o cantor Alexandre Pires, Neymar e Mr. Catra são acusados de racismo por conta do clip Kong, patrocinada pela Ouvidoria da SEPPIR, revela não apenas a desorientação dos órgãos de promoção da igualdade racial do Governo. É mais do que isso: expõe o oportunismo de quem pega carona nos holofotes da mídia para esconder a absoluta inoperância e falta de ação.

Vejamos: Alexandre Pires, Neymar e Catra são figuras nacionais conhecidas em suas áreas de atuação. Pires, negro, é cantor com carreira conhecida, inclusive, no exterior; Neymar, também negro, é apenas o mais famoso jogador de futebol em atividade no Brasil e candidato a melhor do mundo em todas as apostas da crônica esportiva. Catra, insuspeitamente negro, é o que é.

Goste-se ou não do que fazem e de como fazem, tudo poderia ser colocado na conta da ignorância com que figuras públicas – inclusive negras – tratam do tema do racismo no país.

O vídeo em questão mostra uma mansão invadida por três homens vestidos de gorilas, que se juntam a mulheres trajando biquínis sumários. A associação de homens negros (no caso, os próprios acusados) com gorilas, evidentemente, reforça estereótipos condenáveis, que devem ser repelidos. A música e a letra, de quinta, apenas corroboram o mau gosto da peça que é apresentada como entretenimento.

A partir da denúncia da Ouvidoria da SEPPIR, a Procuradoria Geral da República em Uberlândia – cidade onde mora o cantor – entrou no caso. Pires já foi intimado a depor e se defende: “Sinto-me profundamente chocado com qualquer leitura racista ou sexista num clipe protagonizado por mim, negro com orgulho da minha cor, autor e intérprete de música romântica, sem que isso nunca tenha sido confundido com sexismo. Não me consta que meu histórico deixe alguma dúvida sobre o meu respeito à mulher ou ao negro, e a edição deste filme em nenhum momento faz brotar qualquer insinuação similar”, afirmou.

Uma espécie de ciberativismo – ativo nas redes sociais, mas absolutamente anêmico inoperante e omisso na vida real, onde jovens negros são cotidianamente assassinados e pessoas negras humilhadas nas abordagens policiais e em grandes lojas de shoppings e de supermercados – resolveu tratar o caso como prioridade no debate da luta pela igualdade no Brasil, justamente, uma semana após o Supremo Tribunal Federal (STF) declarar a constitucionalidade das cotas e incluir o tema na agenda do país.

Ao invés de se dedicar a ganhar a sociedade para a luta que não se esgota – ao contrário, está apenas entrando em mais uma etapa -, essa espécie de ativismo que, às vezes, por ignorância, inconsciência e ou inconsequência, acaba por se alinhar aos nossos adversários, viu no mau gosto e na reprodução dos estereótipos racistas dos três negros envolvidos, a nova bandeira.

De olho na mídia que poderia render, a Ouvidoria da SEPPIR se adiantou e, numa iniciativa que chama a atenção pela agilidade, resolveu exercer o direito “aos 15 minutos de fama” de que falava Andy Warhol. O Ouvidor Carlos Alberto Souza e Silva, apontado pelo seu antecessor no cargo como inexperiente, brandiu no Fantástico a tese da acusação aos três negros como os novos expoentes do racismo que todos combatemos.

Como temos defendido sempre que o fato de ser negro não é – nunca foi nem nunca será -, padrão de virtude (como também não o é ser gay, de esquerda ou pertencer ao partido Y, X ou Z), e nos pautamos pelo princípio da “prática como critério da verdade”, a pergunta que não quer calar é: a quem interessa lançar sobre Pires, Neymar e Catra a acusação de racistas?

E mais ainda: em um momento em que mais do que nunca a luta pela igualdade se fortalece com a decisão unânime do Supremo, que jogou no lixo a arcaica tese da igualdade formal para, pela primeira vez, reconhecer que ser negro no Brasil é fator de desvantagem por conta dos quase quatro séculos de escravidão e que, portanto, as ações afirmativas e as cotas são medidas necessárias, legais e constitucionais a serem adotadas em todos os setores da atividade.

E por que razão, a SEPPIR – agora tão ágil, tão prestativa, tão açodada, diríamos, nos seus julgamentos – silenciou solenemente quando o músico Raphael Lopes, de S. Paulo, foi comparado com um macaco, há menos de dois meses, pelos humoristas de um famigerado show “Proibidão”, especializado em atingir a imagem e a dignidade de negros, portadores de deficiência, mulheres e homossexuais?

Nesse caso houve, inclusive, uma representação protocolada e despachada com o senhor Ouvidor que, a não ser pelas providências burocráticas de praxe – como os célebres “encaminhe-se”, “informe-se”, “remeta-se” e outros de igual inutilidade – silenciou.

O assunto sequer mereceu registro no site da SEPPIR, cada vez mais ocupado com a divulgação apenas de artigos e de fatos de interesse da senhora ministra chefe Luiza Bairros e do seu grupo restrito de apoiadores, postura que bem poderia ensejar questionamentos a respeito da violação ao principio do art. 37 da Constituição Federal, que proíbe a promoção pessoal na administração pública.

E mais uma pergunta pertinente a ser feita aos comandantes da nova patrulha: por que não se viu a mesma coragem, o mesmo arroubo quando o deputado Jair Bolsonaro, de óbvias ligações com a direita militar comprometida com a ditadura, com a homofobia e as torturas praticadas pelo regime, ofendeu em rede nacional num programa de TV, a dignidade da cantora Preta Gil, filha do ex-ministro da Cultura Gilberto Gil?

É por essas e outras que convém ficar atento quando as ações e reações são movidas por coerência, dever e compromisso com a Causa e quando são ditadas pelo oportunismo midiático que só tem uma utilidade: dar notoriedade a quem desse tipo de expediente se serve e armar nossas adversários que não são poucos.

 

* Dojival Vieira é jornalista, advogado, poeta e presidente da ONG ABC Sem Racismo, além de Jornalista Responsável e Editor da Agência Afropress (www.afropress.com). Sugestões, criticas ou elogios: abcsemracismo@hotmail.com e dojivalvieira@hotmail.com ou pelo site www.afropress.com

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