Ciência é coisa de homem, só que não

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A cada ano, o total de alunos que concluem o ensino superior confirma que as mulheres são a maioria entre os formandos do ensino superior. Outro dado frequente é que elas são minoria nos cursos de exatas e maioria nos de humanas. O que naturalmente leva a velha e polêmica pergunta: por que é assim?

Segundo um levantamento feito pela plataforma  Quero Bolsa, 51% dos homens brasileiros possuem inteligências características da área de exatas, contra apenas 34% das mulheres. Os dados foram avaliados pelos psicólogos do Quero Bolsa que elaboraram um Teste Vocacional a partir da Teoria das Inteligências Múltiplas de Howard Gardner.

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Homens de exatas x Mulheres de humanas

Para fazer esse levantamento, o Quero Bolsa consultou mais de 120 mil pessoas que fizeram o Teste Vocacional e, a partir das respostas delas, foi possível chegar a este resultado:

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Assim, é possível afirmar que 51% dos homens entrevistados possuem uma maior facilidade para cursos de exatas. Já no caso das mulheres, cursos de humanas se sobressaem com 44%. Também é importante fazer uma análise dos componentes principais de cada tipo de inteligência e separá-los por elementos mais desenvolvidos pelas áreas de exatas e de humanas como, por exemplo, o raciocínio lógico-matemático e espacial e a linguística e o relacionamento interpessoal.

Será que é simples assim?

Obviamente, dizer que homens são de exatas e mulheres são de humanas porque são, não é correto e não é algo a ser respondido de forma tão fácil. Entretanto, os dados não mentem. Então, qual é a verdade?

Como já diria a filósofa Simone de Beauvoir: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Apesar das inúmeras interpretações dessa frase, uma delas é de que o que torna o ser humano em mulher são as imposições que a sociedade coloca sobre ela desde o seu nascimento.

“Vivemos em uma sociedade que diferencia meninos e meninas antes mesmo do nascimento. Quando é anunciado o sexo do bebê por meio de uma consulta médica, há sucessiva diferenciação no modo como vão recebê-lo(a) no mundo. São roupas caracterizadas por cores (azul e rosa), brinquedos voltados para meninos e para meninas, decoração do quarto, presentes recebidos pelas pessoas próximas e, inclusive, expectativas de como será o indivíduo que vai nascer”, explica a psicóloga e antropóloga Giórgia Neiva.

Isso reflete também na otimização dos tipos de inteligências desenvolvidas pela maioria dos meninos e meninas. “Os estímulos dos ambientes, de forma conscientes, subconscientes e inconscientes promovem a interação necessária para o surgimento da inteligência humana”, esclarece a psicóloga Adriana Guimarães.

Ou seja, os incentivos dados desde a infância podem comprometer o aperfeiçoamento da inteligência de cada indivíduo. Nesse caso, quando os meninos são criados, a maioria deles consegue desenvolver o raciocínio lógico muito mais facilmente do que meninas, visto que eles são incentivados desde a primeira infância, os primeiros seis anos de vida de um ser humano e quando o desenvolvimento do cérebro sofre maiores efeitos das influências externas, a brincar com blocos de montar, jogos de tabuleiro, videogames e outros tipos de atividades físicas que incitam o desenvolvimento do raciocínio lógico e da atividade cognitiva-motora.

Com as meninas, na maioria dos casos, acontece totalmente o contrário. “As meninas, por sua vez, são criadas com bonecas, jogos de cozinha, jogos de maquiagens, roupinhas para suas ‘bebês’, ou seja, são criadas para cuidar”, enfatiza Giórgia.

Isto é, “o cérebro masculino ativa áreas relacionadas ao raciocínio lógico-matemático, já as mulheres ativam áreas relacionadas à comunicação, intuição e sensibilidade”, reforça a psicóloga Adriana.

“Pequenas mudanças geram grandes transformações”

Ainda segundo Adriana, esses estímulos externos e a maneira como a criança é criada têm um grande peso no desenvolvimento dos tipos de inteligência. É preciso que as meninas tenham a mesma chance desde a infância para começar a se interessar pela área de exatas ou de humanas porque querem, não porque são orientadas involuntariamente a se distanciar de números “porque elas não vão conseguir”.

Para que isso aconteça, Guimarães sugere que exista uma criação igualitária para ambos os sexos, assim os dois poderão desenvolver os tipos de inteligência de forma natural, sem que algum seja prejudicado por não ter tido contato com certos estímulos. “É preciso investir em atividades que desenvolvam a criatividade tanto em relação a exatas como a humanas. Além disso, para realmente mudar esse quadro, seria preciso interesse governamental para reformular a educação brasileira. No entanto, a família ainda é o diferencial para incentivar o desenvolvimento da inteligência infantil”, completa.

Para Giórgia, a melhor opção também é a mudança de comportamento da sociedade. “Aposto na modificação da educação como um todo, ou seja, na transformação estrutural da nossa sociedade, e na mudança de mentalidade das instituições. Educar as crianças, desde pequenas, sem essas diferenças preconceituosas que separam em nível abissal os gêneros é um grande passo e um bom começo para termos uma sociedade melhor. Pequenas mudanças geram grandes transformações”, encoraja a antropóloga.

Isso é regra?

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Evidentemente, isso não é uma regra. Mesmo com a maioria das mulheres tendo criações tradicionais e binárias, milhares de mulheres trabalham e se destacam em profissões da área de exatas e conquistam com muita luta o seu lugar no mercado de trabalho. Mariane Coelho, 23, é Desenvolvedora Web, formada em bacharelado em Ciência e Tecnologia e em Ciência da Computação pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e a única mulher de sua equipe.Curiosamente, as influências da profissão vêm desde a infância, já que sua tia e sua mãe também são da área de exatas, uma professora universitária em cursos de Computação e uma analista de sistemas, respectivamente.

Mariane conta que em seus primeiros anos brincava de boneca e não se interessava pela área que sua tia e mãe tanto adoravam. “Quando era bem pequena brincava com bonecas, como a maioria das meninas. Não gostava do que elas faziam, uma delas dava aula e a outra era analista de sistemas. Isso com certeza não era o que eu queria”, relembra.

Porém, conforme foi crescendo, a profissão de seus familiares começou a chamar sua atenção. “Conforme fui ficando mais velha, fui me interessando pelas atividades da minha mãe. Ela trabalhava com computadores. Eu formatava os computadores, montava e desmontava direto. Isso me divertia bastante. Então, resolvi fazer o curso Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia. Quando conheci a área de computação mais a fundo, percebi que era disso que eu gostava mesmo”, conta Mariane.

Assim como ela sempre teve o apoio e incentivo de sua mãe e sua tia, Mariane também encoraja mulheres a seguirem essa carreira que, estatisticamente, é tão dominada por homens. “Se é o que você realmente gosta, independentemente da área e da quantidade de homens, não desista. É muito bom mesmo trabalhar numa área que você gosta. Ouvindo histórias da minha mãe e da minha tia, elas trabalham há 25 anos na área e ainda gostam muito dela, e tiveram mais boas experiências do que ruins para se lembrar. Eu também estou gostando muito. Logo, não deixe isso afetar sua escolha”, incentiva Mari, cuja meta é logo se tornar uma Tech Lead, a líder técnica de um time de tecnologia.

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