Carta Aberta a Gabigol

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Márcio Trevisan

* Márcio Trevisan – Caro Gabigol (permita-me chamá-lo assim apesar de não termos intimidade para tanto). Em primeiro lugar, quero parabenizá-lo pelas conquistas que seu clube obteve neste último final de semana. Aliás, merecidíssimas, pois se alguém disser que o Flamengo/RJ não mereceu os títulos brasileiro e sul-americano estará cego pela paixão clubística ou, então, não entende absolutamente nada de futebol.

Aproveito, também, para felicitá-lo pela excelente fase que viveu neste 2019, aliás a melhor de toda a sua carreira, e fico aqui me perguntando quais os motivos que o levaram, mesmo sendo tão qualificado, a fracassar de forma tão retumbante no futebol europeu.

Mas o motivo principal desta carta aberta é lhe fazer duas perguntas:

1 – O que o levou a se lembrar da S. E. Palmeiras justamente no momento de maior alegria que seu atual clube viveu nos últimos 38 anos (nossa, fazia tempo…)?

2 – Por que você fez questão de gritar o nome do Verdão apenas poucas horas depois de sua equipe ter virado o placar sobre o River Plate/ARG (por sinal, demorou, mas enfim entendi porque este clube argentino é conhecido como “galinha”)?

Obviamente, estou sendo irônico. É claro que eu sei que sua intenção foi humilhar o Palmeiras e seus milhões de torcedores, e para tanto nem se preocupou com o tamanho da imbecilidade da frase que gritou. Só que, infelizmente para você, o efeito acabou sendo justamente o contrário.

Ao bradar “O Palmeiras não tem Mundial” (e por acaso você já o tem?), nada mais fez do que reconhecer não só o gigantismo, mas principalmente a supremacia palmeirense. Afinal, se após vencer uma competição na qual sequer chegou a enfrentar este clube paulista você fez questão de gritar, a plenos pulmões, o nome da equipe, é porque no fundo sabe que o alviverde voltou a ocupar o lugar de destaque no futebol brasileiro que, com pequenos lapsos de tempo, sempre lhe pertenceu. É como diz o antigo ditado: ninguém chuta cachorro morto, não é mesmo?

Mas, como jornalista profissional há mais de 31 anos, é meu dever informá-lo de que, se em sua opinião o Palmeiras não tem Mundial, o seu Flamengo/RJ também não tem. É que o título conquistado por Zico e cia., em 1981, é reconhecido pela FIFA como intercontinental, e não mundial.

Para a entidade, apenas as edições de 2000 e a partir de 2005 é que foram mundiais, pois somente estes contaram com representantes de todos os continentes. Todas as outras disputas são chamadas pela entidade máxima do futebol de “intercontinentais”, pois tiveram entre seus disputantes somente os campeões da Europa e da América do Sul. Já o título obtido pelo Verdão em 1951 é, para a Fifa, global, pois embora também tenha sido disputado apenas por times sul-americanos e europeus, teve oito clubes em sua fase inicial. Mas, na verdade, Gabigol, tudo isso não passa de nomenclatura.

Se quiser mais informações sobre este assunto, sugiro que leia o livro “A História do Futebol para Quem tem Pressa”, lançado em junho último pela Editora Valentina e escrito por este que ora lhe dirige estas palavras (se quiser um exemplar autografado, basta pedir – eu não faço distinção clubística e nem mesmo cultural. Em outras palavras: trato o culto, o intelectual, com o mesmo respeito e consideração com que lido com o semianalfabeto ou o idiota).

Sabe qual é o maior problema de um jogador de futebol, Gabigol? É que ele acha que um gol, que dois gols ou mesmo que muitos gols vão durar para sempre. E quando consegue marcá-los, acaba se considerando acima do bem e do mal, acaba tendo certeza de que, além de ser bom de bola, é também inteligente, eterno.

Só que não: na verdade, por mais importantes que sejam tais feitos, eles passarão, e bastará uma fase ruim e algumas partidas seguidas sem balançar as redes que tudo isso cairá no esquecimento. Na verdade, Gabigol, a única coisa que jogador de futebol sabe, mesmo, é chutar bola.

E ao dizer o que disse logo após a conquista do último sábado você apenas comprovou esta tese.

Márcio Trevisan

* Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 30 anos. Começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde esteve por 12 anos. Passou, também, pelas assessorias de Imprensa da SE Palmeiras e do SAFESP, além de outros órgãos. Há 13 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos no currículo. Hoje, mantém os sites www.marciotrevisan.com.br e www.senhorpalmeiras.com.br. Contato com o colunista pelo e-mail apresentador@marciotrevisan.com.br

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1 comentário on "Carta Aberta a Gabigol"

  1. Marcio Toledo

    Xará, com certeza essa coluna é a melhor de todas que já postou (claro que todas são muito bem redigidas e de qualidade irretocável)!…
    Parabéns pela carta e como dizem nas redes sociais… #FicaAdica
    Forte abraço!

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