Calor e poluição do ar: até quando?

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* Murilo Valle – Foi assunto recorrente nestas últimas semanas o intenso calor em nossa região. Os termômetros nas áreas centrais e nos principais corredores das cidades indicaram temperaturas acima dos 30 graus Celsius. As brisas foram raras. Em contrapartida, milhares de veículos cortam as vias de nossa região exalando grande quantidade de partículas e calor: na lataria as temperaturas podem superar os 50°C, nos escapamentos perto de 100°C e no interior do carro uma estufa.

Na Grande São Paulo, anualmente, são lançadas mais de 2 milhões de toneladas de gases e materiais particulados na atmosfera. Segundo informações da CETESB, em seu último relatório de poluição do ar, o ozônio passou do limite em 94 dias. O ozônio é um poluente secundário, formando-se a partir de reações, na presença de luz solar, entre óxidos de nitrogênio e compostos orgânicos voláteis, cuja fonte principal são as emissões advindas dos escapamentos dos veículos.

A ausência de políticas regionais de trânsito, que permitam uma melhor coordenação de tráfego entre os municípios, sobretudo nas regiões de divisa, faz agravar o efeito. Nesse contexto, os pedestres, além também de receberem toda carga de energia térmica advinda do asfalto e calçadas, padecem de árvores e áreas verdes que produzam sombras.

Este cenário, aliado à baixa umidade do ar, intensifica a poluição do ar e os efeitos deletérios à saúde. Destaca-se que em regiões mais afastadas dos corredores, principalmente àquelas que possuem maior densidade de vegetação, a temperatura diminui, podendo a chegar em diferenças, com relação às regiões dos mananciais (Billings), por exemplo, em torno de 10°C.  Há uma relação direta entre densidade de vegetação, quantidade e tipos de construções, poluição e o calor, que produz um efeito denominado “ilhas de calor”. Ilha de calor é um fenômeno caracterizado pela expressiva diferença de temperatura em distintas áreas de uma cidade ou região.

O concreto, tijolos, calçadas e asfalto absorvem parte da radiação solar transformando-a em energia térmica, que aquece o ar próximo a superfície; mesmo à noite, pela características de absorção, a superfície continua liberando parte da energia absorvida durante o dia. A vegetação, diferente das edificações e do asfalto, absorve e libera energia mais rápido, principalmente pelos processos de evaporação e transpiração (evapotranspiração) que, de forma significativa, torna o ar mais úmido.

MVclique3_fotoarvoreOu seja, a impermeabilização do solo intensifica a redução da umidade relativa do ar, e os edifícios, além do efeito de irradiação, interferem na circulação do ar, facilitando, em algumas circunstâncias a acumulação de poluentes e dificultando a renovação do ar. É preciso rever com urgência as metodologias de poda de árvores, principalmente quando realizadas por concessionárias de energia e prefeituras. Em muitos casos, como pode-se ver na foto ao lado, não é uma poda, mas sim uma mutilação.

A liberação de materiais particulados, principalmente oriundos da queima de combustíveis fósseis  (veículos) e atividades industriais, modificam as características do ar, condicionando às partículas a capacidade de absorver a radiação solar sob a forma de ondas curtas e liberar na forma de ondas longas, ou seja, simplificando: calor. O crescente e volumoso número de veículos nas ruas e o caos gerado pela desorganização do trânsito tem permitido o acréscimo da temperatura média da superfície nas regiões centrais. Na capital, estudos apontaram aumento em torno de 5°C em cerca de 50 anos.

Soluções tecnológicas não serão suficientes para resolver o problema. É necessário diminuir a quantidade de carros nas ruas, implantar inspeção veicular nas cidades de nossa região e, de forma indissociável, estabelecer novos parâmetros para o transporte público, tornando-o efetivamente integrado regionalmente, mais barato, confortável e rápido. O que existe hoje dá a impressão que o Grande ABC está longe da capital!

Tudo está perdido? não. É possível minimizar os efeitos, por meio de adoção de políticas públicas que integrem a questão do aquecimento global como referencial para a tomada de ações, ou seja, a antiga, e desconhecida por muitos, Agenda 21.

Fotos para divulgação do Prof. Dr. Murilo Andrade Valle, candidato à reitoria da Fundação Santo André. Fotos: Otavio Valle/Divulgação

 

* Professor Murilo Valle é Doutor e Mestre em Geologia pela IGc (Universidade de São Paulo) e coordenador do Curso de Engenharia Ambiental – FAENG (Fundação Santo André). Contato com o colunista pelo e-mail

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