Aquela tarde de abril

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Márcio Trevisan

* Márcio Trevisan – O menino não via a hora de chegar o sábado. Enfim seu pai, conforme prometera, iria levá-lo ao Parque Antártica pela primeira vez. Como pôde demorar tanto? Afinal, já contava seus nove anos bem vividos e até então a TV tinha sido seu único meio de contato com o clube que já tanto amava.

Desde a segunda não continha a ansiedade. “Terça ainda está tão longe…”, lamentava. Na quarta ele começou a preparar a camisa verde, o calção e as meias brancas que ganhara de aniversário, poucos dias antes. Estavam ainda na caixa, pois que mesmo morrendo de vontade de vesti-los, guardara-os para a tão esperada data.        

É quinta-feira, e seu coração bate acelerado. “Falta só um dia!”, comemora. Chega a sexta e ele só faz contar aos amigos da escola que no dia seguinte irá ao estádio pela primeira vez.

Sábado, 9 de abril de 1977. O jogo é só à tarde, mas desde cedo ele inicia o ritual. Estende na cama, pela enésima vez, o uniforme completo. Contempla-o. “É lindo!”, pensa. Nem vai pra rua jogar bola, programa sagrado de todo fim de semana. Fica como que concentrado, aguardando a hora de sair de casa.

De repente, ouve um barulho vindo do céu. “Será um trovão???”, pergunta, assustado, para o pai.

– É, filho, parece que vai chover…

Não, não era possível. Seu pai certamente não iria levá-lo ao jogo se chovesse. Moravam do outro lado da Cidade, não tinham carro e teriam que enfrentar dois ônibus até chegar ao estádio. E para desespero do menino, não dá outra: cai o maior toró.

– Não vai dar, garotão. Outro dia eu te levo.

O menino não se conforma. Chora, grita, esperneia, insiste. Faz o que pode para demover o pai de tal decisão, desde prometer a estudar mais até garantir que não se esconderia no quintal toda vez que a mãe pedisse ajuda em alguma tarefa doméstica. E chorou tanto, e gritou tanto, e esperneou tanto, e insistiu tanto que o pai, mesmo meio contrariado, teve pena e resolveu, de capa e galocha, enfrentar o pé d’água que caía.

E foi mesmo uma aventura. Tiveram de correr contra o tempo para chegar na hora. Apesar do sufoco, conseguiram. Em campo, uma partida horrível, quase tão fria quanto aquela molhada tarde de abril, e um empate por 0 a 0 com a Ponte Preta/SP que causou bocejos nos pouco mais de 16 mil palmeirenses que a viram.       

Mas o menino não se importou. Nem com a má qualidade do jogo, nem com o fato de seu uniforme completo e novinho ter ficado completamente encharcado e nem, tampouco, com a forte gripe que pegou logo depois. Na noite daquele sábado, ele foi dormir com um largo sorriso no rosto, pois sabia que naquela tarde tinha se consolidado uma paixão que o acompanharia pelo resto de sua vida. 

Ganha um doce aquele que adivinhar quem é este menino… 

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Márcio Trevisan

* Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 32 anos. Começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Passou, também, pelas assessorias de Imprensa da SE Palmeiras e do SAFESP, além de outros órgãos. Há 14 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico.

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