Ameaçada de despejo, Cia. Pessoal do Faroeste distribui alimentos em setembro

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Mesmo com risco de despejo iminente e a dificuldade em coletar as doações de mantimentos que diminuem a cada mês, a companhia não pretende interromper o apoio às mil famílias que dependem da campanha #FomeZeroLuz para colocar comida na mesa durante a pandemia

Da Redação – A Cia. Pessoal do Faroeste está passando por uma ação de despejo e tem conseguido se manter no local com o apoio público, intervenção de políticos e pela lei 10.010/2020, que proíbe os despejos durante a pandemia. Paulo Faria, diretor do espaço, corre contra o tempo em busca de uma solução para o problema e, mesmo assim, faz questão em dar continuidade à campanha #FomeZeroLuz, realizada desde abril no local.

Iniciada por Paulo Faria, a ação de solidariedade tem colocado alimento e itens de higiene nas casas do entorno da Cracolândia. A próxima data agendada para o atendimento das cerca de mil famílias cadastradas será de 1 a 5 de setembro.

“As doações de pessoas físicas e empresas, que, até então, eram responsáveis por custear todas as cestas básicas da campanha, diminuem mês a mês. Desde julho que temos enfrentado essa situação de chegar às vésperas da distribuição sem termos mantimentos suficientes para atender a todos. Em agosto, conseguimos atingir a meta por termos sido contemplados pelo ‘Fundo de Apoio Emergencial’”, conta Paulo.

Mais uma vez a campanha está contando com os apoios de última hora, o primeiro deles chegou ontem de uma ação humanitária do Consulado Alemão, que doou 160 cestas básicas. “Até ontem contávamos com apenas 50 cestas, que foi um residual das entregas de agosto. Além da redução normal no interesse em doar, acredito que o anúncio de nosso possível despejo também colaborou para afastar o apoio ao #FomeZeroLuz”, explica

No entanto, nesta quarta-feira (12), o espaço recebeu uma visita diferente: um oficial de justiça que tinha em mãos um aviso de despejo e o prazo de 15 dias para desocuparem o imóvel.

História se repete

No início de 2019, o espaço da companhia teatral já sofrera uma ação de despejo. Na época, houve uma mobilização da sociedade na campanha #FicaFaroeste e foi realizado um acordo com o proprietário e o pagamento realizado com recursos conseguidos pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro.

Dívida de R$ 200 mil

O diretor conta que, este ano, ainda não conseguiram acesso ao fomento da prefeitura e com a paralização da programação, o problema apenas cresceu e dívida acumulada com aluguéis atrasados chega a R$ 200 mil. Pois já se acumula mais um ano e meio de alugueis não pagos. O aluguem foi reajustado em abril deste ano, em plena pandemia, de 10 mil para 11.280 mil “Em 2020, não tivemos nenhum apoio financeiro por meio do Fomento ao Teatro, que é o que mantém a companhia em atividade. Nosso espaço é pequeno e todos os espetáculos têm como bilheteria o sistema ‘pague quanto puder’. Em março reestreamos a peça ‘O Assassinato do Presidente’ que, devido a recomendação de isolamento social, teve que ser interrompida depois de apenas duas apresentações”.

Da quarentena à mudança definitiva para dentro do teatro

Assim que teve início a recomendação do isolamento social, diretor da Cia. Pessoal do Faroeste tomou a decisão de cumprir sua quarentena dentro do teatro. Seu propósito é acompanhar de perto as medidas de acolhimento que seriam tomadas na região da Luz. Assim que identificou que as famílias em situação de vulnerabilidade social estavam totalmente abandonadas, deu início por conta própria a uma ação de solidariedade que conta com distribuição de cestas básicas.

O que Paulo não imaginava é que a experiência de viver dentro do teatro caminhava para se tornar definitiva. Alguns dias antes do aviso de despejo do teatro, ele recebera o mesmo aviso em seu próprio apartamento, no bairro da Santa Efigênia, a algumas quadras da sede da companhia e da Cracolândia.

“Eu vivo exclusivamente da Cia – numa dedicação absoluta, e assim como a própria instituição está sem recursos, o mesmo se reflete na minha situação. Tentei negociar com o proprietário de todas as formas mas não chegamos a um acordo que eu pudesse sustentar. Eu e minhas cachorras nos mudamos para dentro do teatro, adaptei um dos andares para moradia”, conta.

#FomeZeroLuz

A campanha “FomeZeroLuz” tem como missão erradicar a fome na região, que tem suas ruas, pensões e cortiços totalmente ocupados por famílias em total vulnerabilidade, principalmente em um momento como este. “Basta acompanhar a imprensa e as redes sociais que é possível perceber como a situação fez aflorar o egoísmo e a intolerância em uma grande parcela da população. Logo o Brasil que tem uma dívida enorme, escandalosa, com a pobreza e o racismo, segue, descaradamente, fazendo jus a essa história tão triste e revoltante”, diz Paulo Faria, idealizador da ação e que já tem um histórico de trabalhos sociais na região onde, propositalmente, fica a sede de seu grupo de teatro.

“Estão distribuindo cestas básicas no teatro”, correu a notícia por todo o entorno e, em pouco tempo, já são mais de mil famílias cadastradas, cerca de quatro a cinco mil pessoas, que estão colocando alimento em suas mesas graças a companhia. Para se ter algum controle de que as doações seguiriam realmente para o seu propósito, criou-se a regra de que apenas as mulheres poderiam retirar os mantimentos (com algumas exceções analisadas caso a caso). Moradoras de rua, prostitutas, travestis e viciadas que, antes de qualquer rótulo, são em sua grande maioria mães.

A campanha foi ganhando apoio enquanto Paulo divulgava cada passo da ação, e seus relatos quase como um diário, nas redes sociais. “Foi por meio da internet que as pessoas conheceram nosso trabalho, resolveram ajudar com suas doações e ajudando a divulgar a campanha. A situação atual em que nos encontramos também comprova como cada centavo que entrou como doação foi utilizado apenas na compra das cestas básicas”, conta Paulo. “Se vierem de fato cumprir o despejo contaremos com o Movimento dos Sem Tetos do Centro, que virá ocupar coma gente o Teatro, e varemos uma vigília cultural. Como disse a Deputada Érica Malunguinho em apoio ao Faroeste “precisamos exercer a desobediência organizada”.

Sobre a Cia Pessoal do Faroeste

Em 2020 o Pessoal do Faroeste completou 22 anos. A companhia de teatro tem tido como fonte de pesquisa a vida social e política do povo brasileiro por meio de seu imaginário popular e de sua cultura, e com um olhar especial à cidade de São Paulo, especificamente o centro, onde tem a sua Sede Luz do Faroeste.

Com o objetivo de realizar trabalhos artísticos que reflitam momentos históricos da sociedade brasileira, a proposta é produzir intervenções que valorizem a cidade, o centro de São Paulo, e crie um sentimento de pertencimento com região, numa narrativa oposta a violência que é criada pela administração pública. É em sua Sede que se desenvolvem os projetos e a contribuição para o espaço urbano e social. A Cia Pessoal do Faroeste ganhou o Prêmio Shell em 2014, na categoria Inovação pelo trabalho de ocupação e intervenção social e artística que contribui para transformação urbana da região da Luz. Em 2019, o diretor Paulo Faria recebeu da ALESP O 23o Prêmio Santo Dias em Direitos Humanos.

Doações e voluntários para o #FomeZeroLuz

Doações de Alimentos e produtos de higiene pessoal podem ser entregues pessoalmente: Teatro Cia. Pessoal do Faroeste – Rua do Triunfo, 301/305 – Próximo à Estação da Luz.

Doações em dinheiro com depósito em conta:
Banco Bradesco (Conta PJ)
Ag.: 9019
C/C: 0451-0
CNPJ: 19.758.255/0001-46
Benef.: Paulo R Faria P

Doações para o #FicaFaroeste, contra a ação de despejo

Vaquinha online: https://abacashi.com/p/ficafaroeste

Petição online: https://secure.avaaz.org/community_petitions/po/prefeitura_da_cidade_de_sao_paulo__ficafaroeste_mobilizacao_contra_a_acao_de_despejo_do_teatro_da_cia_pessoal_do_faroeste/

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