A gente tem que acreditar. Sempre.

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Márcio Trevisan

* Márcio Trevisan – Ele era um menino de oito anos que adorava o Pelé. É, aquele gênio que jogou no Santos havia muitos anos. Jamais o vira na vida, mas gostava dele, sabe-se lá por quê. O que prova que ele sempre fora um grande santista.

Numa noite, pouco antes de dormir, achou que já havia chegado a hora de tomar uma séria decisão em sua vida: assim como todos os meninos de oito anos, decidiu que Quando crescesse seria jogador de futebol. Mas não qualquer jogador, desses que jogam em qualquer time.

Não: ele jogaria só no Santos, o time do seu coração. Já imaginando os gols que marcaria – porque, claro, seria um fantástico atacante, como o Pelé – já ouvia os gritos de “E, ô, e, ô, o Rafa é um terror!”. Assim, embalado pelo carinho da torcida que lotava o estádio de sua imaginação, dormiu. E sonhou.

Sonhou com a Vila Belmiro lotada numa decisão de Campeonato Paulista. De um lado, o Santos e sua maior estrela: ele, é claro. Do outro, o Corinthians. O técnico do Peixe, justamente Pelé, conversava com ele antes do jogo: “Rafa, você é nossa maior esperança. Você tem que acreditar… Sempre”, dizia.

O jogo começa e como todo clássico é bastante disputado. O Corinthians joga bem, não se intimida com o campo e sua torcida continua fanática. Aos poucos, o Santos vai equilibrando as ações e o primeiro tempo, embora repleto de emoções, termina empatado em 0 a 0.

Durante o intervalo, Pelé o chama para uma conversa particular. Num cantinho do vestiário, o “Rei” fala baixinho, quase sussurrando. “Você precisa resolver esta partida, cara. Você tem que acreditar… Sempre”, disse. Aquela frase ficou na sua cabeça: “Tem que acreditar sempre, tem que acreditar sempre…”.

Quando o segundo tempo começou, queria definir tudo de cara. Mas a marcação corintiana o impedia de fazer jogadas mais ousadas. Do banco, o ‘Rei” continuava gritando: “Tem que acreditar, Rafa! Tem que acreditar!”. Só que o jogo seguia igual – nem Corinthians e nem Santos conseguiam chegar ao gol. Nas arquibancadas, a imensidão praiana se angustiava, pois via que a prorrogação parecia inevitável.

Mas, aos 44 minutos, recebeu um lançamento na intermediária, driblou dois corintianos e levou a bola para a direita. Lá, passou pelo lateral-esquerdo e entrou em diagonal na grande área. Desesperado, o goleiro corintiano saiu em sua direção, e ele fez, então, o mais bonito: tocou de leve, por cobertura, como se fosse o… Pelé.

Gol do Peixe! Gol do campeão paulista! Ainda no gramado mas já com a faixa, recebeu um abraço do técnico, ídolo e amigo, que mais uma vez, sussurrou: “Eu não disse, Rafa? Tem que acreditar… Sempre”.

De repente, abriu os olhos e não viu mais a torcida. Seu corpo estava molhado de suor, mas bem menos do que ao final do jogo dos seus sonhos. Olhou para o lado, mas Pelé não estava lá. E a grama macia, onde rolou de alegria com seus companheiros, era agora o colchão de sua cama. Meio confuso, levantou-se. Viu seu pai, que já estava apressado para o trabalho, e disse:

– Pai, eu quero ir à Vila Belmiro.
– Fazer o quê?
– Jogar no Santos.
– Jogar no Santos? E você conhece alguém lá?
– Conheço, sim. Conheço o Pelé.
– Ah, claro, você conhece o Pelé…
– É pai. Ele é o técnico do Peixe e gosta muito de mim. Ele até já me disse que eu sou o melhor jogador do nosso time.
– Filho, eu já falei pra você não ficar vendo futebol até tarde. Daqui a pouco você vai acabar acreditando nessas coisas.

Baixou os olhos, triste. Seu pai não o levara a sério, não acreditara. Esperou, então, que ele ajustasse o nó da gravata, pegasse a pasta e, quando estava saindo pela porta o chamou novamente, mas só para lembrá-lo:

– Pai, a gente tem que acreditar. Sempre.

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Márcio Trevisan

* Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 32 anos. Começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Passou, também, pelas assessorias de Imprensa da SE Palmeiras e do SAFESP, além de outros órgãos. Há 14 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico.

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