45 Graus, 1ª montagem do Màli Teatro, se despede do Sesc Av. Paulista

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Montagem é inspirada livremente na novela “A Dócil”, de Fiódor Dostoiévski, com direção de Marcos de Andrade, ator que por mais de uma década integrou o CPT (Centro de Pesquisa Teatral), dirigido por Antunes Filho

Da Redação – A São Paulo de 2019 se entrelaça a São Petersburgo de 1876, de Dostoiévski. A peça “45 GRAUS”, montagem de estreia do Màli Teatro, é a primeira direção de Marcos de Andrade, integrante do CPT/Sesc por mais de uma década. O espetáculo, que teve estreia no dia 29 de outubro, tem suas últimas apresentações nos dias 3 e 4 de dezembro, terça e quarta, às 21h, no Sesc Avenida Paulista.

A peça apresenta dois movimentos dramáticos: o primeiro ato, que se passa no início do século XX e que se mostra como uma interpretação particular que o grupo faz do texto de Dostoiévski, trazendo a história da jovem mulher que cometeu suicídio; daí deriva a criação do segundo ato, autoral, que se passa no século XXI e que tem como elemento de ligação com o ato anterior, tanto espacial quanto narrativo, o prédio que as personagens habitam.

A montagem inaugura uma nova série de espetáculos no Sesc Avenida Paulista, cujo fator comum é ser a estreia do artista como diretor, dramaturgo ou a primeira montagem de grupo. O objetivo do projeto é viabilizar a obra de jovens artistas ou de pessoas renomadas que estão experimentando novas funções frente ao Teatro.

SINOPSE

Em um casarão centenário no centro de São Paulo, convivem personagens separados por décadas no tempo. A presença dos que ali viveram na década de 30 do século passado ecoa, influencia e é influenciada de maneiras distintas por personagens que viverão ali no século 21.

A PEÇA

Para reprodução deste clássico, “A Dócil”, não foi pensada à adaptação, mas à abertura de fissuras para o “não-conhecido” e, a partir daí, relacionar os contatos com o tempo e o mundo contemporâneos.

Dostoiévski partiu de um fato real: leu uma nota em um jornal sobre uma jovem e miserável costureira que havia se matado. Tratava-se de um ato e uma imagem que evoluíam, com uma aura de mistério secular, para uma síntese de enigma puro, principalmente para um escritor que, como diz Vadim Nikitin, tradutor da novela, procurava “na combinação tensa entre o jornalista e o narrador, investigar a realidade com os olhos postos na urgência do dia”.

A linguagem da rua, a cidade e a arquitetura eram caras a Dostoievski. Sua prosa parecia sintetizar em literatura o que ele sentia do cotidiano: o ambiente urbano, ebulitivo, fantasmagórico e polifônico. O mundo em mudança.

A relação entre um autor que está escrevendo uma novela em 1874 na Rússia, um penhorista com sua jovem esposa na década de 1930 no Brasil, ao mesmo tempo em que um grupo cria uma peça de teatro no centro de uma das maiores cidades da América Latina no século XXI, utiliza de raciocínios quânticos sobre a matéria do tempo e do espaço. Casarões centenários espalhados pela cidade que sobrevivem à passagem do tempo e que carregam em si carga de tantas histórias, sons que vagam pelo espaço e se perdem no universo.

Não fosse o espanto de Dostoiévski com o suicídio da menina, sua memória estaria vagando perdida como tantas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em relatório deste ano, no mundo, a cada 40 segundos, uma pessoa resolve interromper a própria vida. Ainda segundo os dados oficiais, o suicídio é a segunda causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos, estando atrás apenas dos acidentes de trânsito. Pouco se sabe sobre essas mortes dado o receio de que a divulgação possa incentivar novas tentativas. A memória dessas pessoas torna-se nebulosa, como se tivessem sido condenadas a percorrer pelo limbo, do mesmo modo como viveram seus últimos meses antes do ato fatal. Fantasmáticas em vida, entram para a eternidade como se suas mortes não tivessem acontecido.

“O título faz referência a um trecho da novela de Dostoievski em que um dos personagens fala de uma espécie de força, quando estamos no alto, que nos atrai para baixo. Segundo esse trecho, em uma angulação do corpo de até 45° é possível resistir a essa pulsão e evitar um desfecho trágico”, explica o diretor Marcos de Andrade.

O MÀLI TEATRO

Teatro Màli é o “pequeno teatro”, edifício onde o encenador russo Stanislavski desenvolveu parte de sua carreira e seu método. Certa vez ele disse: “O Teatro Màli definia nossa vida espiritual. Posso dizer com segurança que não fui educado em uma escola, mas no Teatro Màli”.

Assim se inspira o Màli Teatro, na construção de um lugar onde é possível trabalhar o próprio tempo. Os integrantes que formam o Màli compartilham a necessidade de frear a velocidade, de deixar a obra criar raízes, dar tempo para que ela mostre como quer ser. Criar com tempo para errar. A primeira ideia muitas vezes é só o veículo para se chegar à forma mais justa de determinada cena ou peça. É necessário outro ritmo para que essas camadas sejam reveladas.

Em 2017 essas pessoas que se encontraram no CPT, como atores, atrizes, dramaturgo e cenógrafa, reuniram-se em torno de um interesse em comum, a novela de Dostoiévski. Em 2018, contemplados pelo edital “Laboratório de Cena” para uma ocupação artística da Sala Arquimedes Ribeiro na FUNARTE-SP, foi possível experimentar cenicamente a pesquisa há tempos iniciada. Ao longo da construção dessa peça aconteceram ações formativas como palestras sobre a literatura russa e Dostoiévski, encontro com tradutor Vadim Nikitin, com a dramaturga Priscila Gontijo, além de uma oficina de adaptação dramatúrgica e ensaios abertos. “45 GRAUS” foi gestada em pouco mais de dois anos de trabalho.

Serviço – “45 GRAUS”, até 4 de dezembro de 2019. Terça e quarta, 21h, no 13º Andar – Arte II do Sesc Avenida Paulista (Avenida Paulista, 119, Bela Vista, São Paulo – Fone: (11) 3170-0800) Duração: 110 minutos Classificação: 14 anos Ingresso: R$30. R$15 (meia) e R$9,00 (credencial plena)

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