O Carnaval, e o Meio Ambiente

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* Murilo Valle – O Carnaval é uma das principais manifestações culturais coletivas do Brasil, ocorrendo sob diversas formas no território nacional. É um período de muita diversão, alegria e também marcado pelo consumo exagerado de bebidas alcoólicas, energia elétrica, combustíveis, e insumos pertinentes aos festejos. A quarta-feira de cinzas deixa, além de saudades, uma conta insustentável dos pontos de vista ambiental e econômico.

Tomando como exemplo os desfiles das escolas de samba, caracterizados, dentre os quais, pelo vultuosidade, suntuosidade e beleza, tem-se de forma notável que a preocupação ambiental não está incorporada nas ações, principalmente pelo: desperdício de materiais, uso de materiais não recicláveis ou de difícil reciclabilidade, uso de tintas de alta toxicidade e consumo exagerado de energia. Chama a atenção a falta de gestão ambiental, caracterizada pela ausência de informações sistemáticas dos impactos decorrentes do carnaval, pois não se tem controle de quanto é gerado de resíduos pelas agremiações, por exemplo.

Estima-se que uma escola de samba do grupo especial gasta em média cerca de 10 milhões de reais, sendo que aproximadamente 80% é dispendido à compra de insumos, ou seja, perto de 6 milhões de reais são direcionados ao lixo logo após os desfiles, por escola. Tendo como referência o carnaval carioca de 2016, expoente mundial,  tem-se como resultado cerca de 1100 toneladas de lixo retirados das ruas no final da festa, o que equivale, no que se refere à dinâmica básica de resíduos sólidos urbanos, ao equivalente a geração diária de uma cidade de 1 milhão e 200 mil habitantes.

Esses resultados ocorrem em decorrência do uso de determinados materiais, quer seja nas alegorias ou nas fantasias, que dificultam a reutilização, bem como pela inabilidade das escolas de programar o uso e estocar. Falta consciência ambiental. Adiciona-se ainda nesta conta os resíduos provenientes da limpeza de ruas e outras áreas de concentrações de foliões.

Não obstante, o alto nível de competitividade, sobretudo nos desfiles do Rio de Janeiro e São Paulo, induzem à necessidade de inovação, originalidade e, cada vez mais, de investimentos para suprir o latente crescimento criativo e tecnológico e, por outro lado, mostram um modelo administrativo de sucesso, que geram o aquecimento e o crescimento de cadeias produtivas em torno do carnaval. Infelizmente a estrutura do modelo administrativo que inclui administração participativa e estratégica, empreendedorismo, governança corporativa e administração do conhecimento, peca na responsabilidade social e ética a partir do momento que permite os desequilíbrios ambientais e financeiros.

Em localidades em que predomina outras formas de carnaval, impactos ambientais decorrentes do descarte irregular de resíduos em terrenos, rios e mares são gritantes. Em muitas cidades o carnaval tornou-se uma festa autoritária, que cresce em demasia, tornando-se, às vezes, maior que a própria cidade, motivada pela indústria do espetáculo. Nesta evolução, considerando que cidade não se restringe apenas ao espaço físico-territorial, mas sim, em um ambiente de habitação em que se preconiza o pleno exercício da cidadania e da ética, nem sempre a cidade sai ganhando.

Que preço a sociedade quer pagar pela felicidade que o carnaval propicia? A mídia televisiva lucra milhões com o carnaval e não participa de forma adequada na compensação socioambiental. É hora de emitir a fatura. Em paralelo, sabendo-se que no aspecto geral o carnaval propicia um latente prejuízo ambiental e social, é preciso, desde já, estes serem contabilizados e compensados. Festa de carnaval desvinculada de preocupação ambiental sobrecarrega o sistema público uma vez que toneladas adicionais de resíduos são encaminhadas para os aterros Carnaval, frente ao que resulta, não pode ser tratado apenas como uma manifestação cultural, mas sim como empreendimento. É uma questão de sobrevivência e cidadania.

Fotos para divulgação do Prof. Dr. Murilo Andrade Valle, candidato à reitoria da Fundação Santo André. Fotos: Otavio Valle/Divulgação* Professor Murilo Valle é Doutor e Mestre em Geologia pela IGc (Universidade de São Paulo) e coordenador do Curso de Engenharia Ambiental – FAENG (Fundação Santo André). Contato com o colunista pelo e-mail murilovalle@hotmail.com

 

 

 

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