Futebol, Carnaval e Cinzas

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* Márcio Trevisan – Quem acompanha meu trabalho sabe que tive algumas passagens no campo da Assessoria de Imprensa, e a primeira delas se deu no começo deste século, quando assumi o cargo no Palmeiras. Tempos complicados aqueles, em que o time sofreu sua primeira queda para a Série B do Brasileirão.

Por outro lado, além da honra de ter ocupado tal função, este detalhe me ajudou a compreender o futebol de uma maneira mais ampla e ver situações que, acreditem, nem mesmo jornalistas com décadas de experiência sequer imaginam que possam existir.

Nesta semana, por exemplo, revivi – agora do lado de fora – uma destas situações. Irritada com as recentes derrotas e, sobretudo, com o desempenho da equipe desde o começo deste ano, a torcida palmeirense foi às portas da Academia de Futebol protestar e cobrar o elenco antes da viagem a Fortaleza/CE, onde a equipe jogou – e de novo perdeu – neste fim de semana.

Até aí, nada de anormal, já que este é um direito do torcedor (desde que, claro, os protestos se limitem a palavras de ordem e a manifestações pacíficas). Mas o que me chamou a atenção foram dois dos alvos escolhidos pelo torcedores: Felipe Melo e Jaílson.

Ao lado de outros que, de fato, não rendem um bom futebol há muito tempo (Lucas Lima, Zé Rafael, Rony, Marcos Rocha,…), os dois atletas acima citados também foram hostilizados pela galera, mesmo sendo o zagueiro um dos raros que ainda demonstra sangue nos olhos quando está em campo e o goleiro – aliás, reserva – um cara que, até outro dia, era ídolo da galera mesmo sem jogar.

E foi aí que me lembrei do ano de 2003. Então já disputando a Segundona, o Verdão tinha no grupo alguns jogadores constantemente perseguidos pelos torcedores organizados, e outros que podiam errar o quanto quisessem que, mesmo assim, eram poupados das vaias. Não vou citar nomes por motivos que, daqui a pouco, vocês entenderão, mas posso dizer que um dos constantemente criticados era um segundo volante que, mesmo sem ser craque, jamais foi um mau jogador.

Aliás, muitas vezes ajudou a equipe com suas cobranças de faltas e escanteios que terminaram em gols. Já um outro, blindado de todas as formas, era um atacante de boa qualidade técnica, mas que até pela jovialidade cometia erros por vezes grotescos. Porém, ainda assim, tinha seu nome gritado das arquibancadas em todas as partidas.

Sem entender os motivos que levavam os torcedores a agirem de forma tão inversa em relação a ambos, um dia perguntei àquele que, mesmo sendo tão útil, era perseguido pelos torcedores qual era o motivo da bronca, enquanto o outro, que vivia a pisar na bola, jamais passava por tal situação. E a resposta, prezado internauta, me fez arregalar os olhos. “É simples, Trevisan: ele contribui mensalmente com um valor para ajudar as organizadas nas ‘despesas do Carnaval’, enquanto eu me nego a fazer o mesmo”, disse-me.

Ao que parece, Felipe Melo e Jaílson não curtem muito uma folia.

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